Existem algumas cenas que a série Madison, com a espetacular Michelle Pfeiffer, provoca em quem assiste com atenção. Não são cenas de ação. Não são diálogos brilhantes. É o silêncio e até o desespero que fica depois que tudo muda — de repente, sem aviso, sem chance de se preparar.
A protagonista acorda num dia comum e, horas depois, não tem mais a vida que tinha. O marido. A rotina. A certeza de amanhã. Tudo isso some. E ali, naquele vácuo absurdo que a trágica perda cria, começa a pergunta mais difícil que qualquer ser humano pode enfrentar:
"O que é que eu estava construindo, afinal?"
Essa pergunta raramente aparece nas nossas reuniões de planejamento estratégico. Não está no OKR do trimestre. Não aparece na revisão de metas de dezembro. Mas ela existe. E vai cobrar resposta — de você, de mim, de qualquer um — num momento que a vida vai escolher sozinha.
A ilusão de quem tem agenda cheia
Vivemos numa cultura corporativa que confunde urgência com importância. Gente produtiva com gente "ocupada". Passamos anos construindo histórias de produtividade — quantas reuniões participamos, quantas metas batemos, quantos clientes fidelizamos — como se o marcador do jogo estivesse no dashboard do CRM e nas inúmeras planilhas onde conseguimos planejar e "prever" quase tudo.
E há algo de bonito nisso, sim. A disciplina, o foco, o desejo e a ambição de crescer. Eu vivo esse mundo e tenho me tentado de todas as formas reduzir a insanidade de uma agenda sempre lotada. E que fique claro: respeito profundamente quem dá o sangue por resultados, pois sou exatamente assim.
Mas existe uma pergunta que precisa viver ao lado de todas essas métricas: crescer tanto para quê?
Porque existe uma diferença enorme entre uma vida de alta performance e uma vida de alta significância. E a maioria das pessoas que conheço — executivos brilhantes, líderes respeitados, profissionais excepcionais — nunca parou para pensar seriamente nessa distinção.
A ilusão de controle é o luxo favorito de quem tem agenda cheia.
Quando você sabe exatamente o que vai acontecer amanhã de manhã, qual reunião vem depois do almoço, qual cliente ligar na quinta — cria-se uma sensação perigosa de que a vida está sob controle. Que você é o gestor do seu tempo, o arquiteto do seu destino – ou como ouvi outro dia em um dos melhores podcasts que sigo da Mel Robbins – e da chamada "ilusão do controle".
Madison destrói essa ilusão com uma brutalidade suave. Ela não precisa gritar. Ela apenas mostra que a vida não cabe tão somente em planilhas, contas recheadas de muito dinheiro e do tão sonhado "status" que ele nos traz. Que o maior projeto da sua existência pode ser interrompido entre uma mensagem e outra no WhatsApp. Sem prévia. Sem reunião de kickoff. Sem aviso.
O controle que tanto cultivamos é real em partes — e ilusório no que realmente importa.
O problema sério com presença
O mundo corporativo tem um problema sério com presença.
Não a presença física — essa nós dominamos. Somos ótimos em estar no lugar certo, na hora certa, vestidos da forma certa. O problema é a presença real: aquela que olha nos olhos sem pensar na próxima reunião, que ouve de verdade sem já formatar a resposta, que existe completamente no momento sem estar ali grudado e sedado pelo celular.
Quantas vezes você jantou com a família e estava — de fato — em algum cliente que ligou antes das 19h? Quantas vezes seu filho falou alguma coisa e você processou apenas metade, por que a outra metade ainda estava no relatório não entregue?
Eu pergunto isso sem julgamento. Porque já fiz isso – e ainda faço, preciso aqui te confessar com a culpa de quem busca viver com o tão desafiador equilíbrio. E aprendi — com muito custo — que presença é um ativo que não se recupera com bônus no fim do ano e com aqueles super contratos que nos trazem comissões prá lá de generosas.
Relações profundas não se constroem com intenção futura. Elas se constroem com atenção presente. Esse é o único capital que, quando desperdiçado, não volta corrigido pela Selic.
Quem vai sentir sua falta — e Por Quê?
Há uma cena que a série provoca — não pelo que mostra, mas pelo que pergunta silenciosamente: quem vai sentir sua falta? E por quê?
Não estou falando de obituário. Estou falando de legado cotidiano. De quem você é para as pessoas que dormem na mesma casa que você. De como você trata o time que depende de você. De quanto da sua presença real você oferece às pessoas que mais importam — antes que a vida decida fazer essa pergunta por você.
Porque no final, ninguém vai lembrar do trimestre em que você bateu 112% da meta. Vão lembrar de como você os fez sentir. Se você estava lá. Se você viu. Se você importou.
A redefinição de sucesso
Então o que é sucesso, de verdade?
Sucesso não é o quanto você ganha. Não é o tamanho do patrimônio, o cargo no LinkedIn ou a quantidade de países visitados a trabalho. Não é a vida extravagante que os chamados "influenciadores" nos tentam enfiar goela abaixo. Sucesso, na minha visão mais madura e honesta é a capacidade de olhar para a própria vida e reconhecer que valeu a pena para quem você ama – e principalmente para quem te ama –, e não apenas para quem te "segue".
É ter uma carreira que sustente uma vida, não uma vida que sustente uma carreira.
É ser o tipo de pessoa que, quando sai de um ambiente — familiar, profissional, social — deixa algo melhor do que encontrou. É ter a certeza de que, se tudo acabar amanhã, não vai faltar nada ao coração de quem você ama e em especial da sua família.
Sucesso é presença com propósito. É resultado com alma.
A pergunta que fica
Não escrevo isso para te convencer a largar tudo e ir morar numa cabana. Escrevo porque acredito que as melhores versões de nós — como profissionais, como líderes, como pessoas, como pais, como filhos, como amigos — aparecem quando a ambição (não ganância) está alinhada com o nosso legítimo propósito.
Quando o que fazemos de segunda a sexta faz sentido também no sábado de manhã, quando a agenda está vazia e sobra tempo para pensar e até para criar coisas novas e planejar novos sonhos ao lado de quem você ama, para não ficar com o gosto amargo de não os ter realizado quando tudo acabar.
Madison não é uma série sobre tristeza. É uma série sobre despertar. Sobre o que que importa de verdade. Sobre o que te move de verdade. Não o que te ocupa, mas o que te move.
A pergunta que fica, portanto, não é filosófica. É urgente:
O que você vai fazer com o tempo que ainda tem?
P.S.: Se você ainda não assistiu Madison, assista! E depois reflita profundamente sobre o que vai fazer daqui para frente. Minha esposa finalmente topou viajarmos pelos EUA de motorhome!