Segura que aí vem textão, mas talvez esse seja um daqueles textos que eu precisava escrever muito mais para mim mesmo do que para qualquer outra pessoa, porque a foto que tirei ontem, no domingo frio e chuvoso da formatura da nossa filha mais nova aqui em São Paulo, não registra apenas essa cerimônia. Para mim e para a Evelise, ela representa 26 anos de uma caminhada que teve de tudo um pouco, como a vida de verdade costuma ter: sonhos, perdas, dificuldades, trabalho, fé, tropeços, conquistas, pedras e, felizmente, muitas flores pelo caminho.

Ontem, nossa Ana Cecília, a Ci, colou grau em Publicidade e Propaganda pela ESPM, justamente a faculdade em que ela sempre sonhou estudar, e a cerimônia aconteceu no Vibra São Paulo, o antigo Credicard Hall, exatamente o mesmo lugar onde, há 26 anos, eu também participei da minha colação de grau em Direito pela PUC-SP. Naquela época, a Evelise já estava grávida da nossa primeira filha, a Gê, e nós éramos dois jovens começando um casamento, começando uma família e, ao mesmo tempo, tentando reconstruir a vida depois de uma sequência bastante dura de acontecimentos.

Eu havia quebrado ainda durante a faculdade, nossos pais enfrentaram problemas sérios de saúde, meu sogro faleceu menos de um ano depois do nosso casamento e, poucos anos mais tarde, meu pai também iria embora. Financeiramente, a situação era difícil a ponto de eu só conseguir colocar as mãos no meu diploma da PUC quase dez anos depois da formatura, quando finalmente terminei de pagar aquilo que ainda devia à universidade. Eu mesmo paguei minha faculdade e minhas pós-graduações e, olhando hoje para trás, talvez essas dificuldades tenham ajudado a formar muito daquilo que me tornei, inclusive profissionalmente, porque aquele bacharel em Direito acabou recebendo um dos maiores presentes da sua vida ao se tornar vendedor e, depois, professor, palestrante e alguém que encontrou no trabalho a possibilidade de ajudar e servir outras pessoas.

Por isso ontem eu me emocionei tanto. Chorei em vários momentos porque, enquanto via a Ci receber o diploma, era impossível não assistir também ao filme da nossa própria vida e perceber como 26 anos parecem muito tempo quando olhamos para o calendário e, ao mesmo tempo, parecem ter passado num piscar de olhos quando certas lembranças continuam absolutamente vivas dentro de nós.

Foi aí que me veio uma reflexão que gosto muito e que ouvi numa interpretação belíssima de "Tocando em Frente", de Almir Sater e Renato Teixeira, feita por Rio Negro & Solimões: às vezes corremos tanto pela vida que deixamos de perceber as flores que estão no meio do caminho.

E como isso é verdadeiro.

A vida obviamente tem pedras, algumas pequenas, outras enormes, e algumas delas aparecem sem qualquer aviso, independentemente da nossa competência, do nosso planejamento, da nossa disciplina ou da nossa vontade. Existem doenças, perdas, acidentes, circunstâncias que simplesmente não controlamos, e talvez por isso mesmo o simples fato de estarmos vivos, podermos caminhar, amar, trabalhar, aprender, conviver e sonhar já seja um presente extraordinário que muitas vezes tratamos como algo banal.

Só que no meio dessas pedras também existem flores, e talvez uma das grandes sabedorias que o tempo nos traz seja justamente aprender a enxergá-las enquanto elas ainda estão diante de nós, e não apenas quando já viraram lembrança. A gente passa a vida olhando para a próxima meta, para o próximo projeto, para o próximo contrato, para a próxima conquista e corre o risco de não perceber aquilo que já conquistou, as pessoas que já estão ao nosso lado e a quantidade de bênçãos que já recebeu.

Ontem, olhando para a Evelise e para nossas filhas, pensei muito nisso. A Gê também teve a oportunidade de estudar onde sempre quis, na Fundação Getulio Vargas, seguiu sua formação, mais tarde concluiu uma pós-graduação na própria ESPM e hoje constrói sua própria caminhada. E agora a Ci conclui a ESPM, exatamente na área que escolheu e na escola em que sonhava estudar. As duas, hoje, já constroem carreiras dentro de grandes empresas e escrevem, cada uma no seu ritmo, as próprias histórias profissionais. Como pais, isso nos enche de orgulho, mas acima de tudo nos traz uma enorme sensação de gratidão por termos conseguido oferecer a elas educação, estrutura, valores e amor para que agora possam voar por conta própria.

E talvez seja por isso que hoje eu tenha uma visão cada vez mais simples do que considero sucesso. Evidentemente trabalho, realização profissional, segurança financeira e conquistas importam, e seria ingênuo fingir que não importam, mas nada disso ocupa o mesmo lugar que a minha família, minha fé e a possibilidade de olhar para trás e perceber que, apesar de todas as dificuldades, continuamos juntos e seguimos caminhando.

Quando existe um norte, quando existe um centro muito claro na nossa vida e quando temos a convicção de que há uma força infinitamente maior que nós nos guiando, que para mim tem nome e é Jesus Cristo, até as dificuldades ganham outra dimensão. Elas não desaparecem e tampouco deixam de doer, mas talvez encontremos mais força, serenidade e esperança para atravessá-las.

Ontem, 26 anos depois, eu voltei ao mesmo lugar onde uma parte importante da nossa história havia começado. Na primeira vez eu estava no palco, recém-formado, cheio de incertezas, com uma filha ainda na barriga da Evelise e uma vida inteira por construir. Dessa vez eu estava na plateia, ao lado da mesma e amada mulher, vendo nossa filha mais nova receber o diploma dela.

E talvez seja essa a grande reflexão que eu queira guardar desse domingo e dividir com quem tiver paciência de chegar até aqui: a vida não é uma linha reta, não tem fórmula mágica, não oferece garantias e muito menos atalhos seguros, mas é uma jornada absolutamente maravilhosa quando conseguimos dar sentido à caminhada, ultrapassar as pedras que aparecem diante de nós e, principalmente, não correr tanto a ponto de deixar de enxergar as flores.

E, para fechar, deixo aqui aquela mensagem que ouvi na abertura de "Tocando em Frente" pela dupla Rio Negro & Solimões, e que sintetiza tudo aquilo que eu tenho sentido nessas últimas 24 horas melhor do que eu jamais conseguiria escrever:

"Às vezes a gente corre tanto pela vida e deixa passar todas as coisas bonitas. A gente corre tanto que não percebe as coisas, as flores, na beirada do caminho. Às vezes a gente quer que o fruto amadureça antes do tempo. A gente tem muita pressa, mas somente o tempo sabe dar as coisas pra gente na hora certa. O tempo sabe o momento exato de dar o presente que a gente merece."

Rio Negro & Solimões

Ontem eu olhei para trás.

E vi muitas pedras.

Mas, graças a Deus, vi flores demais.

E só consegui agradecer por essa magnífica jornada.

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José Ricardo Noronha

José Ricardo Noronha | Zé Vendedor

Fundador da Paixão por Vendas

Professor de MBA na FIA/USP e PUC/RS, com especializações em Harvard, Columbia, Cambridge, EM Lyon, Illinois Tech e Owen (Vanderbilt). Autor do best-seller "Vendas. Como eu faço?" e prepara o novo livro "Tenha fãs, porque quem tem cliente é o seu concorrente". Conheça a bio completa →

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