Soberania, arrogância e queda: a lição que o futebol dá para as vendas, reflexão de Zé Ricardo Noronha

Como são-paulino fanático que sou, conheço essa história de muito perto, e preciso confessar logo de cara que dói bastante escrever sobre ela.

Durante muito tempo, o São Paulo não foi apenas mais um dos grandes clubes do Brasil: foi o mais vencedor do país inteiro, tricampeão do mundo, tricampeão brasileiro em sequência e uma referência de verdade quando o assunto era gestão, estrutura, formação de atletas e grandeza no sentido mais legítimo da palavra. E foi justamente ali, no auge de toda aquela glória, que nasceu uma palavra que começou como elogio sincero e, com o tempo, terminou como uma perigosa armadilha: soberano.

O problema dessa tal "soberania" é que ela é profundamente traiçoeira. Nasce como um reconhecimento merecido e, no momento em que menos se espera, se transforma numa espécie de licença poética para a arrogância. A diretoria passa a achar que sabe mais do que todo mundo e ousa se apropriar do clube como se ele fosse, de fato, de sua propriedade particular. A torcida começa a se enxergar acima do bem e do mal. Os jogadores vestem a camisa como se ela, sozinha, fosse capaz de ganhar o jogo. E a instituição inteira passa a acreditar, ingenuamente, que o passado assinou algum tipo de procuração para garantir de antemão todo o futuro.

Só que o passado não assinou procuração nenhuma. Ele inspira, orgulha e ensina, mas não entra em campo: não marca gol, não recompõe a defesa, não contrata melhor, não treina no lugar de ninguém e, definitivamente, não distribui títulos por direito adquirido.

E é exatamente essa ferida que hoje escancara não apenas a decadência do meu São Paulo, mas também a queda técnica, moral e simbólica de toda a nossa Seleção Brasileira.

Desde 2002, o Brasil vive de crédito vencido

Faz mais de duas décadas que o Brasil se comporta como se o mundo ainda nos devesse algum tipo de reverência, como se o simples fato de sermos o único pentacampeão da história bastasse para obrigar adversários, jornalistas e o próprio futebol moderno a se curvarem diante da gente.

Só que o jogo mudou por completo, e nós não percebemos isso a tempo. Os adversários evoluíram, a preparação física virou ciência, a gestão dos clubes e das seleções virou uma profissão levada a sério, e a intensidade dentro de campo deixou de ser um diferencial para se tornar mera obrigação. Enquanto tudo isso acontecia ao nosso redor, nós continuávamos presos a uma caricatura romântica e ultrapassada de nós mesmos.

Apostamos que o talento natural do brasileiro resolveria tudo sozinho, e ele simplesmente não resolveu. Apostamos que o peso da nossa camisa amarela intimidaria mais o adversário do que a nossa própria falta de humildade nos atrapalharia, mas foi exatamente essa falta de humildade que acabou pesando contra nós. Apostamos, enfim, que bastava juntar alguns bons jogadores, dois ou três astros supervalorizados, um discurso patriótico de ocasião e a memória afetiva das Copas antigas para que a Seleção voltasse sozinha ao topo. Ela não voltou; pelo contrário, desceu, e já faz um bom tempo.

O Brasil não perdeu apenas o brilho de outros tempos. Perdeu prestígio, perdeu encanto, perdeu autoridade e, acima de tudo, perdeu a humildade necessária para admitir uma verdade profundamente incômoda: somos hoje bem menos relevantes no futebol mundial do que gostamos de imaginar. Dói escrever isso, eu sei muito bem. Mas continuar fingindo que não é verdade dói ainda mais lá na frente.

Sobre os "fiscais de opinião retrospectiva"

Já sei que, diante de tudo isso, vão aparecer os críticos dos críticos, aquela turma que adora dizer que é muito fácil analisar o lance depois que a bola já entrou. É o famoso fiscal de opinião retrospectiva, que só dá as caras quando o placar já está fechado. E vão aparecer também os puxa-sacos de plantão, defensores incondicionais de astros que, a despeito de todo o talento descomunal que carregam, simplesmente deixaram de se esforçar para brilhar naquilo que sabem fazer como poucos no mundo.

E tudo bem que apareçam, porque essa é justamente a beleza da democracia: cada um de nós tem o pleno direito de olhar para os fatos, refletir, discordar e provocar, mesmo que isso incomode profundamente a narrativa oficial dos eternos otimistas de arquibancada.

E a minha crença sobre esse assunto é bastante simples. A queda da Seleção não começou no apito final daquele jogo contra a Noruega; ela começou muito antes disso. Começou no dia em que confundimos a nossa história gloriosa com uma suposta superioridade permanente, e continuou quando trocamos o trabalho silencioso e consistente por um marketing barulhento e virulento, numa época em que as redes sociais chegam ao ponto de escalar jogadores que já estão em pleno fim de carreira. Ela avançou quando passamos a endeusar atletas que ainda não haviam entregado, com a camisa amarela nas costas, nada daquilo que se esperava deles. E se agravou, sobretudo, quando transformamos gente em marca muito antes de consolidar essa mesma gente como líder, exemplo e vencedor de verdade.

E aqui vai o recado que realmente interessa a todos nós: o sucesso, quando de fato chega, jamais autoriza a arrogância. Não autoriza no futebol, não autoriza nas empresas, não autoriza nas vendas e muito menos autoriza na vida, ainda mais quando esse tão sonhado sucesso sequer chegou a acontecer.

A doença da grandeza presumida

A nossa Seleção, assim como o meu São Paulo, parece ter contraído exatamente a mesma doença, e eu costumo chamar essa enfermidade de grandeza presumida. É uma doença silenciosa e traiçoeira, que faz com que toda instituição vitoriosa comece a se achar imune ao fracasso. É a mesma doença que faz o profissional bem-sucedido parar de estudar porque acredita que já "sabe o suficiente", que faz o líder confundir o cargo que ocupa com a autoridade que precisa conquistar todos os dias, e que faz o vendedor confundir uma carteira gorda de clientes com um domínio eterno e garantido do mercado.

E é aí que mora o grande perigo, porque no futebol, exatamente como acontece nas vendas, não existe retrovisor. Tudo o que você ganhou ontem já ficou para trás: o contrato que fechou no ano passado virou história, a comissão que caiu na sua conta já foi gasta, e o cliente que ontem estava completamente encantado com o seu trabalho pode estar sendo assediado pelo concorrente exatamente agora, enquanto você lê este texto. Aquele mercado que parecia garantido para sempre pode simplesmente mudar de humor, de critério e de preferência de uma hora para a outra.

E quando isso acontece, tudo recomeça do zero: todo ano, todo mês e toda semana, assim como acontece a cada novo jogo, a cada nova visita e a cada nova negociação. Essa é justamente a parte que os arrogantes mais detestam ouvir: a vida simplesmente não respeita currículo velho quando a sua entrega de hoje é medíocre. De nada adianta ficar repetindo que você já foi muito bom um dia; você precisa provar, todos os dias, que ainda continua sendo.

No fim das contas, camisa não corre; quem corre é a alma. E talento parado, por maior que seja, não vale absolutamente nada; o que vale mesmo é a entrega. Faz sentido?

Ninguém cai de repente

O São Paulo precisa, com urgência, olhar honestamente para dentro de si mesmo e entender de uma vez por todas que soberania sem competência não passa de puro folclore. A Seleção precisa exatamente da mesma dose de verdade, e cada um de nós, dentro das nossas próprias carreiras, também precisa dela. Afinal, a pergunta desconfortável serve para absolutamente todo mundo: quantas vezes você se achou bem melhor do que realmente era? Quantas vezes parou de estudar por acreditar que já "sabia o suficiente"? Quantas vezes tratou clientes, colegas e equipes com uma arrogância cuidadosamente disfarçada de experiência, apostando que o seu nome e o seu carisma seriam capazes de sustentar os resultados sozinhos?

E aqui chegamos à grande lição por trás de toda queda: ninguém cai de uma vez só. A queda é sempre construída aos poucos, tijolo por tijolo: uma decisão ruim seguida de outra, uma soberba somada a mais uma, uma desculpa cuidadosamente empilhada sobre a anterior. Quando o tombo finalmente chega, ele até parece súbito, mas quase nunca é. Antes da queda propriamente dita vem o autoengano, depois vem a negação, em seguida a arrogância e, por fim, a irrelevância, até que sobra apenas aquele susto coletivo de quem olha para trás e pergunta, incrédulo: "como foi que deixamos chegar a esse ponto?"

E a resposta, por mais dura que seja, é sempre a mesma. Deixamos chegar a esse ponto porque paramos de olhar para a realidade com honestidade, porque preferimos a narrativa confortável ao diagnóstico duro, porque confundimos a crítica bem-intencionada com torcida contra e porque insistimos em chamar de pessimismo aquilo que, na maior parte das vezes, não passava de pura e simples lucidez.

Humildade não é enfeite. É ferramenta de sobrevivência.

E talvez seja essa, no fim de tudo, a maior provocação que o futebol tem a nos entregar hoje. A humildade não é uma virtude meramente decorativa, dessas que a gente coloca no crachá só para exibir aos outros; ela é, na verdade, uma legítima ferramenta de sobrevivência. É a humildade que nos permite aceitar que o mundo não vai parar para esperar por nós, que os nossos concorrentes evoluíram muito mais rápido e que a reputação até abre muitas portas, mas apenas a competência é capaz de mantê-las abertas. E é ela, sobretudo, que nos lembra de uma verdade essencial: nas vendas, na carreira e no futebol, todo novo ciclo sempre começa do zero.

A soberania que não é constantemente renovada pelo trabalho sério acaba virando arrogância. A arrogância que não é corrigida a tempo pela humildade acaba virando cegueira. E a cegueira, cedo ou tarde, sempre termina em queda.

O Brasil precisa reaprender a competir de verdade, o meu São Paulo também precisa, e cada um de nós, em alguma medida, precisa exatamente da mesma coisa. Que a Seleção, o meu tricolor do coração e todos nós tenhamos, portanto, a coragem necessária para aprender a lição antes que venha o próximo tombo. Porque no futebol, nas vendas e na vida, viver de passado é sempre confortável demais, só que passado nenhum ganha o jogo de hoje, ainda que os nossos títulos de ontem façam parte até da letra do nosso hino. E viver de passado, no fim das contas, não fecha contrato algum e tampouco constrói qualquer futuro vitorioso.

E aí, me conta: qual foi o seu último grande "título"? E, muito mais importante do que isso, o que exatamente você está fazendo hoje para provar que ainda é plenamente capaz de conquistar o próximo?

Se a sua equipe comercial anda confortável demais com os resultados que conquistou ontem, então esse é exatamente o momento de agir. Aqui na Paixão por Vendas, nós ajudamos times a trocar a soberania presumida por competitividade real, sempre com muito método, muita prática e foco absoluto em resultado. Vamos conversar?

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José Ricardo Noronha

José Ricardo Noronha

Fundador da Paixão por Vendas

Professor de MBA na FIA/USP e PUC/RS, com especializações em Owen Graduate School of Management, Harvard Law School, Columbia, EM Lyon, Illinois Tech e Cambridge. Especialista em Vendas de Alta Performance e autor de best-sellers sobre vendas consultivas. Mais de 30 anos de experiência em vendas.

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